sábado, 29 de abril de 2017

Em tempo de vigaristas... mais uma estória do Camané, por Júlia Ribeiro

Por Moncorvo têm passado muitos vigaristas, de todos os tipos e feitios, para além dos que exercem a vigarice institucionalizada. Então não será uma porca de vigarice cortarem nas pensões, subsídios de férias e de Natal a quem tem tantas dificuldades e deixarem fugir os vigaristas que se abotoaram com milhões que nós temos de pagar?
Mas ouçamos o Camané :
Vou falar dos vigaristas que trabalham por conta própria. Há alguns cujas vigarices deixam pessoas incautas muito lesadas. Não gosto deles. Há outros , mais astutos, que preferem lesar os gananciosos e depois o povo até diz “foi bem feito” . E há aqueles que ficam na memória pela ousadia, inteligência e até por uma boa dose de imaginação. São as histórias destes últimos que me regalam. Diria até que me fascinam. Vou contar-vos uma destas.
Quando se deu inicio à construção da barragem do Pocinho, era o Engº Ramiro Salgado, pessoa muito conceituada em Moncorvo, encarregado da empresa Somague. Um fim de semana veio à vila acompanhado de um colega que apresentou em Moncorvo como Engenheiro representante da Efacec. E nas conversas de café, tudo começou a girar à volta do Sr.Engenheiro da Efacec.
- Então, Sr. Engenheiro, a Efacec também vem trabalhar para a barragem do Pocinho ? perguntava um dos comerciantes da nossa praça, a pensar já em ganhos chorudos.
- Pode ter a certeza e vai precisar de alguns bons fornecedores.
- Conte comigo. Tenho os melhores materiais de construção da vila. Não vai uma cervejinha?
- Agradeço, mas agora só um golinho de whisky, para acompanhar o café.
- O´pá, traz daí um whisky do bom aqui pro’ sr. Engenheiro.
Daí a duas horas era outro comerciante a oferecer os seus préstimos: materiais e, acima de tudo, o seu saber (ainda se não dizia “know-how” ), a sua experiência no ramo, a sua mais-valia.
- Venha jantar comigo. Vamos à posta mirandesa do Artur , que aquilo é de comer e chorar por mais. - Combinado. - E, numa voz bem falante, quase desvendando um mundo de grandes negócios, acrescentou: - E talvez não fosse má ideia levar um ou dois bons amigos consigo ...
Nesse jantar, bem comido e bem bebido, o Sr.Eng.º da Efacec, evidenciou conhecimentos técnicos, discutiu sobre o país e a sua economia, e os quatro comerciantes moncorvenses à roda da mesa ouviam-no embasbacados. Já completamente seduzidos pela conversa tão científica, tão culta, do sr. Eng.º da Efacec, este tirou da carteira um papel e, com movimentos lentos, bem estudados, mostrou-o aos seus futuros parceiros nos lucros das sub-empresas que iam criar: 40 mil contos ! Não era dinheiro de tremoços. Era um cheque visado de QUARENTA MIL CONTOS ! Era uma pipa de massa. Qual quê? Era um tonel de massa. E os comerciantes moncorvenses trocaram olhares que disseram : “Temos aqui uma fonte de rendimentos”.


- A chatice é que hoje é Sexta-feira e já não posso depositar o cheque no banco. Só na Segunda isso vai ser possível. Agradecia que um dos senhores pagasse o meu jantar. Na Segunda-feira...
- Nem se fala mais no assunto. Eu pago – disse um.
- Nada disso. Quem paga sou eu.
- Ora, ora, meus amigos. Ninguém vai discutir por causa de um jantar. Vamos combinar o seguinte: no Sábado e Domingo, os senhores pagam as minhas depesas. Na Segunda prometo pagar com juros.
Entre risos e mais uns copinhos de bom whisky regressaram a Moncorvo.
E o Camané continuou:
- Eu tinha uns 18 anos e lembro-me dele no restaurante“O Passarinho”. Era Sábado. Ao almoço aquilo estava sempre cheio. Nesse Sábado rebentava pelas costuras. Enquanto vinham os cafés, os conhaques e os whiskies (licores para as senhoras) o nosso eloquente engenheiro palestrava para os comerciantes - já todos seus amigos - para os engenheiros da barragem e para quem quisesse ouvi-lo. O gajo até falava bem. E mais: a sua postura cativava. Eu tinha 18 anos e confesso que também fiquei preso pela faladura do tipo. A dada altura vieram as anedotas, os ditos com piada e o Sr. Engº da Efacec lançou um problema :
“De pontos opostos, dois carros partem ao mesmo tempo, ao encontro um do outro. Têm de percorrer a distância de 100Km. Um deles anda a 50Km /h ; o outro anda a 100km/h . Quando se cruzam qual dos carros está mais perto do destino: o que anda a 100km/h, ou o que anda a 50km/h ?”
- Então desenrolou-se a cena mais surrealista que alguma vez presenciarei na minha vida: postado num canto da sala, estava o Sr. David, empregado do Sr. Campos, proprietário do restaurante; no outro canto estava um Engº que trabalhava para a Somague na barragem do Pocinho. O Srº Campos deu o sinal da partida e os dois homens caminharam um ao encontro do outro. Ora, o sr. David arrastava os pés. Quando se cruzaram, pararam e perguntaram quem era que estava mais perto de um determinado canto. O Sr.David só tinha andado um metro, enquanto o outro tinha andado o triplo. O Sr. Engº da Efacec ria que nem um perdido e toda a gente ria ás gargalhadas .
E eu contei esta cena, para mostrar que o homem era de facto cativante. Os comerciantes estavam rendidos . Tudo o que ele dissesse era feito na hora.
Na 2ªfeira, o Sr. Engenheiro pediu a um dos comerciantes amigos para o acompanhar ao banco . Depositou o cheque mas, como a quantia era enorme, só lhe seria dado o dinheiro daí a alguns dias. Provavelmente daí a uma ou duas semanas. Almoços e jantares continuaram na forma habitual.
E foi assim que os comerciantes começaram a cumprir as ordesns do Sr. Engº da Efacec : um enviou um telegrama a encomendar largas centenas de fatos-de-macacos que iriam ser precisos para os muitos trabalhadores que a Efacec ia contratar; outro comprou todos os bidões de óleo nas garagens da vila e arredores para o vender mais caro para as obras da barragem; outro fez uma encomenda de milhares de parafusos enormes com rosca para a esquerda; ainda outro, dono de uma loja de artigos eléctricos, encomendou milhares de peças à Efacec, porque iria ter grandes descontos e bónus. Todos estavam à espera de lucros enormes.
Esta lufa-lufa ainda durou uns dias.
Foram contratados cinquenta homens para trabalhar para o tal Sr. Engenheiro. Não sabiam para o que iam, mas que era muito bem pago, lá isso era. Os trabalhadores seriam transportados para a barragem do Pocinho no autocarro da empresa “Santos”. O trabalho começaria numa segunda-feira e o pessoal contratado tinha que estar na Praça Francisco Meireles às 7h. Estavam todos lá, o autocarro e as 50 pessoas, mas do tal Engº nem a sombra. Nunca mais se ouviu falar dele.

e ... sumiu
Os comerciantes, envergonhados, foram à pressa suspender as encomendas ( então para que é que alguém iria querer milhares de parafusos enormes com rosca para a esquerda? Ou quando é que alguém iria vender centenas de fatos-de-macaco?) e, coitados, choraram os almoços e jantares que o Sr.Engº da Efacec lhes havia custado. A pensão onde se hospedara não viu um chavo.
O bendito do cheque visado de 40 mil contos não chegou a ser levantado. Primeiro, porque o Banco não tinha esse montante; segundo, porque o Sr. Eng.º nunca foi localizado. Dupla maré de sorte: do Banco, pois seria com certeza o assalto do século em Moncorvo; do engenheiro, porque se divertiu à grande e à borla. Comeu, bebeu, pernoitou e ... sumiu, evaporou.

O Camané contou, a Júlia escreveu.
Leiria, 21 de Nov.º , 2011
Júlia Ribeiro

Postado em 30/11/2011

18 comentários:

  1. ESTA É UMA ESTÓRIA DO CARAÇAS !!!!
    eheheheheh !!!!!!!!!

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  2. Cum raio ! Parece que os portugas até gostam de ser enganados. Para não dizer uns palavrões que aqui ficavam mal.

    Carlos Sousa

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  3. Recordo-me muito bem desta estória. Mas houve um homem, que eu sempre considerei muito inteligente, que desconfiou do tal engenheiro. Disto, talvez pouca gente se recorde. Esse homem era o Engº Gabriel David Monteiro de Barros.

    Joaquim Carvalho Milheiro

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  4. É por estas e por outras, que a nossa VILA parou no tempo, acreditam em tudo....gente boa sem pingo de maldade.

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  5. Minha Nossa! A estoria tá um barato. Me ri até chorar. Mas tava na cara que era tudo bué de vigarice. Minha Nossa, tava na cara memo.

    Brasuca

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  6. Alguma sim, era gente boa sem pingo de maldade, mas outros foram enganados por ganância. Havia e há de tudo.
    Dizem que anda meio mundo a enganar outro meio, mas eu acho que são quatro quintos a esganar os mais pobres que não entendem as promessas bonitas e falinhas mansas e pensam que é tudo verdade. Como os Moncorvenses que foram borlados e calaram muito caladinhos e hoje continuam a ser intruijados e a calar muito caladinhos porque podem perder a porra do empreguito ou a porcaria da esmola.

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  7. O Zita de Mirandela usava a mesma ganãncia do ganho facil com o guarda-chuva e as pirulitas pelas festas e feiras no verão e este eng. usou o mesmo isco, apenas mais sofisticado.Ainda há dias li um papel em Moncorvo que anunciava alugar quartos só a professores e de sexo feminino,continua a ser uma barragem depois o Moncorvo desse tempo....tmb já conhecia esta estória
    ...mas gostei de a recordar.

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  8. Ainda bem que alguem se lembrou desta história, já ia ficando no esquecimento.

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  9. Vigaristas poiem-me fora de mim. Mas esta dos parafusos com rosca ao contrário tem requintes de imaginação e malvadez.

    A.C.J.

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  10. Essa vigarice foi muito falada na vila. Mas eu só soube dos calotes que o homem deixou. Não sabia que ainda gozou com a malta toda.

    Zé do Carrascal

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  11. HÁ um ditado em Abrantes que diz:Se não roubas ou não herdas se julgas que ficas rico és um merdas.
    O engenheiro era de Lisboa e foi divertir-se prás berças, o senhor engenheiro Sócrates é das berças e foi divertir-se para Lisboa.É a nossa roleta russa.
    ÓH Camané! isto foi uma EFACECA!O banco era o Ultrmarino?com o cheque podiam ter deitado o mamarracho abaixo.As porcas gostaram dos parafusos com a rosca ao contrário?
    Berrão

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  12. Cuidado pessoal com obras em duas barragens ainda aparecem dois engenheiros.Grande texto.Conseguir rir das nossas misérias é o máximo.
    Isto dava uma "revista" à portuguesa do catantcho,já a estou a ver no CELEIRO .Casa cheia.

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  13. Apoio a ideia do Anónimo das 18.49. Apresente-se o La Feria moncorvense. O Celeiro vai encher várias vezes.

    Uma Leitora

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  14. Olá Dra. Júlia!A sua "estória"fez-me rir.Já agora permita-me uma pergunta:
    Será que esse sr. engenheiro também era um desses que se dizem Transmontanos e nos andam a "deslustrar"?Um bj de gratidão e carinho pelo comentário que fez ao meu texto.Irene

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  15. Olá, Amigos , Blogueiros e comentadores:

    No meio das crises de toda a forma e feitio, o Camané vai-nos contando umas estórias com todos os ingredientes para uma boa gargalhada.

    Obrigada a todos pelas vossas palavras amigas.
    Um obrigada muito especial à Ireninha , retribuo o beijinho , e aquilo que eu disse sobre o seu texto é mais que justo . E tire para lá o Dra. , se faz favor.

    Abraços
    Júlia

    Olá, Amigo Camané, venha daí deixar um comentário aos comentários.

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  16. Olá Julinha! este texto passou-me.
    O que eu me estou a rir com isto tudo!
    Bijinho,
    Tininha

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  17. Olá, Tininha:

    Ainda bem que se divertiu com a estorinha do vigarista, contada pelo Camané.

    Beijinhos,
    Júlia

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  18. Então pergunto eu na minha simplicidade...ninguém tirou satisfações com o Engº Ramiro Salgado?,uma vez que foi ele que o apresentou a Moncorvo?...ou ainda ninguém se lembrou de colocar esta questão?. Eu gosto muito pouco que se goze com os Moncorvenses,eu na altura era um puto,devia ter 5 ou 6 anos,mas hoje com 43 anos,custa-me de igual forma que se goze com os Moncorvenses,disse

    Leonel Serra (filho)

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