sábado, 1 de setembro de 2012

Padre José Telmo Ferraz

Nasceu em 25 de Novembro de 1925, na freguesia de Bruçó, concelho de Mogadouro, distrito de Bragança. Depois da instrução primária, na sua terra natal, ingressou no Seminário de Vinhais, passando em seguida para o Seminário Maior de Bragança, onde veio a ser ordenado sacerdote em Julho de 1951. Colocado como pároco, logo a seguir, na freguesia de Genízio, concelho de Miranda do Douro. passou, dois anos depois, para as paróquias de Vila Chã da Graciosa e Picote no mesmo concelho facto que viria a marcar toda a sua vida de sacerdote. Naquela altura, começava a ser construída a Barragem de Picote no Rio Douro. Vindos de vários pontos do país, chegavam lá homens carenciados e desprotegidos à procura de trabalho, sem família, sem dinheiro, sem abrigo e sem roupa, cansados duma longa viagem. A todos recebeu o P. Telmo, com caridade cristã, procurando arranjarlhes trabalho por intermédio dos engenheiros da barragem com quem mantinha boas relações de amizade e confiança. Para livrar aquela gente do frio e da noite, aconselhou os a construírem barracas, ajudando se uns aos outros. Tal foi o entusiasmo que dentro de pouco tempo fizeram casinhas e casinhas e muitos mandaram ir as famílias para junto deles. Estava descoberta a grande vocação social deste homem de Deus. Em 1956, começou a construção da Barragem de Miranda do Douro e o P. Telmo acompanhou também o início desses trabalhos, pondo igualmente o seu esforço e o seu carinho ao serviço dos mais desprotegidos. Data desta altura. o seu livro de poemas O Lodo e as Estrelas que mais não é que a expressão das emoções que lhe despertavam na sua alma sensível aos problemas daquela gente. Apaixonado pela construção de barragens e pelos problemas sociais e humanos que desencadeavam, partiu, em 1959, para a Angola. acompanhando a construção da Barragem de Cambambe, no rio Cuanza. Terminada esta obra, regressou a Portugal pelo Natal de 1962, pedindo então ao seu Bispo licença para ingressar na Obra do Padre Américo ou Obra da Rua que, como todos sabem. se dedica a trabalhar com meninos com graves problemas familiares e sociais. Em 1963, esta obra estabelecia se em Angola (Malange e Benguela), e o Padre Telmo foi designado responsável da Casa do Gaiato de Malange que ele construiu de raiz numa fazenda a cerca de 10 quilómetros da cidade, junto à estrada que liga Malange a Luanda. Ali trabalhou, com todo o entusiasmo, até 1975, mesmo para além da Independência de Anáola. Nesta altura, a Casa do Gaiato de Malange era já uma aldeia com várias residências, muito airosas, uma lindíssima capela, um amplo refeitório, oficinas de vário tipo, vacaria, pocilga e todo o instrumental duma forte casa agrícola. Praticando a pedagogia da porta aberta, que fora timbre do P. Américo, o P. Teimo. tinha sempre patente a Casa do Gaiato, onde a população de Malange ocorria sobretudo aos Domingos a deleitar se à sombra das árvores ou mesmo a dar belos passeios de barco na lagoa que ele lá tinha escavado. Tudo lhe foi tirado, vendo se o P. Telmo obrigado a instalar se numa fazenda próxima, na sanzala de Carianga, com os rapazes maiores de 18 anos cujo o encargo o estado já não assumia. Em 1980 foi o P. Teimo eleito principal responsável pela Obra do P. Américo, sendo, por isso, obrigado a regressar a Portugal em 1981, passando a trabalhar na Casa do Gaiato de Paço de Sousa. Com a viragem política, após a queda do Muro de Berlim, a Obra da Rua foi de novo convidada a regressar a Angola, sendo lhe então restituídas as antigas casas de Malange e Benguela. Voltou o P. Telmo a dirigir a Casa de Malange, que encontrou praticamente destruída, e que, por isso, teve de reconstruir com tanto ou mais trabalho que da primeira vez. Com altos e baixos, ao sabor da guerra, a Casa do Gaiato de Malange foi de novo reactivada, albergando hoje quase duas centenas de rapazes, a quem o P. Telmo, não obstante a avançada idade, continua a dedicar se com incansável esforço e total dedicação. Mesmo assim, ainda arranja tempo para socorrer àsua volta uma multidão de desgraçados a quem a guerra deixou sem pão e as minas mutilaram cruelmente.
Publicou o livro de poemas O Lodo e as Estrelas, em 1960, em edição do Autor, que veio a ser retirado da circulação pela censura do antigo regime. A 2.a edição foi publicada pela editorial da Casa do Gaiato, em 1975. Para além deste livro, o P. Telmo tem nos dado outros mimos da sua alma de poeta, no jornal O Gaiato onde colabora com assiduidade, com páginas de rara beleza e fina sensibilidade.
Isaque Barreira
In ii volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,
coordenado por Barroso da Fonte, 656 páginas,

8 comentários:

  1. Um livro extraordinário que eu li de uma vez só. Um tema para conhecer, um livro para se ter

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  2. É sempre com muito orgulho de transmontano que sinto a projecção de um nosso conterrâneo e em várias vertentes.
    O exemplo deste grande Alto Duriense faz-nos reflectir quando começamos a pensar que já estamos velhos......
    A força de vontade, a sensibilidade e a solidariedade para com os mais desprotegidos, são sempre molas que nos impulsionam e fazem agir.
    Os meus parabéns e o desejo de longa vida ao padre José Telmo Ferraz.

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  3. O livro de poemas do Padre Ferraz é comovente pela força do seu amor pelos mais desvalidos.
    Quando ele foi pároco em Genízio (perto de Miranda do Douro), a minha irmã era professora nessa mesma aldeia. Ficaram amigos. Anos depois, quando ele já estava em Picote, ela foi visitá-lo. Era quase hora de almoço e ele insistiu que almoçasse com ele. Tinha como criado um antigo contrabandista, que tratava dele e da casa com muito esmero e estima e era um excelente cozinheiro. Segundo ela, o velho contrabandista fez a melhor paella que já comera.
    Depois o P.Telmo Ferraz teve de ir tratar de uns papéis e o empregado contou-lhe episódios interessantes do modo como vivia o P.Telmo. Por exemplo, quando ele, empregado, achava que o padre andava de calças já muito sujas ou rotas e queria obrigá-lo a vestir umas calças lavadas e passadas a ferro, que é delas ? Já as tinha dado. E o mesmo acontecia no inverno com os cobertores da cama. Dava tudo, mesmo aquilo que lhe fazia falta.
    A minha irmã vai procurar umas fotografias que nem sabe onde param, para depois contar mais uma estorinha do P.Ferraz.

    Júlia Ribeiro
    1 de Setembro de 2012 15:19


    PS - Peço imensa desculpa pelo erro cometido com o meu comentário: cliquei em algo que não devia e o comentário foi removido, sumiu. Tive de o escrever novamente.

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  4. A freguesia de Picote compreende ainda outra aldeia de nome Barrocal do Douro. Constituiu-se como um bairro para os trabalhadores da fase posterior à construção da barragem.
    Inicialmente foram-se acumulando na zona que envolvia a construção, oriundos de todo o país, principalmente do Norte, atraídos fundamentalmente por promessas de emprego. Aquando da construção, os trabalhadores enfrentaram situações de extrema pobreza, ocupando não só todo e qualquer refúgio natural que lhes proporcionasse abrigo, mas também frágeis barracas que pudessem em vão protegê-los da intempérie. Eram tempos difíceis dos quais muitas famílias em Picote ainda se lembram e dos quais ainda há registos na natureza que envolve a aldeia de Barrocal do Douro.

    O primeiro pároco da aldeia deixou-nos registos escritos de tais acontecimentos em livro. Em "O lodo e as estrelas", o Padre Telmo Ferraz percorre as variadas situações de desespero e pobreza dos trabalhadores da barragem. Todo o trabalho sujo tinha sido deixado a cargo de pessoas que deixaram a sua vida no trabalho da construção da primeira barragem hidroeléctrica do Douro.
    Agora tudo mudou. As barracas foram substituídas por fortes casas de cimento ou madeira e jardins melhorando significativamente a vida dos trabalhadores. Este trabalho arquitectónico foi recentemente premiado com uma exposição denominada "Moderno Escondido" e que reúne os trabalhos dos arquitectos do bairro.
    Barrocal viveu já o seu período áureo. Entre 1959 (data da inauguração da barragem) e 1974, a agora aldeia era então um bairro de pequenas proporções possuindo também uma pousada, piscina e campo de ténis destinados aos quadros superiores da empresa, e o bairro destinado ao resto dos trabalhadores. Após o 25 de abril, a piscina e o campo de ténis foram abertos à generalidade dos trabalhadores da empresa pois a situação anterior não se enquadrava no espírito democrata do Portugal democrático. A situação anormal estava agora regularizada.
    Barrocal do Douro manteve-se inalterado até 1990, data em que o controlo das barragens do Douro, até então feito individualmente por grupos de trabalhadores em cada barragem, passou a ser efectuado na barragem de Bagaúste, Peso da Régua. O Centro de Controlo foi assim transferido, bem como algum do pessoal que trabalhava ao longo de todo o Douro. O resto dos trabalhadores foram sujeitos a reformas antecipadas que os obrigou a terminar mais cedo a sua vida activa.
    Muitos mantiveram-se pelo Barrocal nas casas que pertenceram à EDP e que esta lhes permitiu comprar por preço reduzido. As outras casas foram postas à venda recentemente, tendo-se verificado uma enorme procura por parte de caçadores e gente em busca de algum sossego. Também recentemente parte das casas do bairro (aquelas construídas em madeira) foram demolidas a fim de evitar a sua deterioração.
    Agora no Barrocal vivem poucas pessoas, ao contrário do passado. A esperança para quem lá mora reside no turismo. Com grandes potencialidades a esse nível, foi constituída uma empresa junto com a EDP que vai passar a gerir a pousada e os recursos naturais com vista ao turismo.
    Quanto a nós, que vivemos lá a nossa infância, é triste ver como tudo aquilo está e recordar como era no passado. Eu e o meu irmão tivemos lá a oportunidade de viver coisas que não poderíamos noutros lugares. Fizémos bons amigos e é sempre com muita saudade que lá regressamos. Temos apesar de tudo a sorte de podermos passar férias em Picote e estar sempre naquela região que nos é tão querida.

    Os «Barragistas»,
    Nuno Monteiro & Francisco Monteiro
    http://www.bragancanet.pt/picote/portugues/barrocal.htm

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    1. Sou de Vila Chã da Braciosa, nasci em 1949. Conheci bem de perto o nosso muito querido Padre Telmo. Estivemos juntos em Luanda por varias vezes. Continuamos ainda muito amigos. Deus o recompense por tudo bem que fez por todos aqueles que lidaram com ele´, aos que ouviram falar dele e àqueles que nem uma coisa nem outra. Obrigado Padre Telmo, não tenho palavras para descrever tanta nobreza.
      O livro o Lodo e as Estrelas, li-o quando era adolescente duma vez só. Recordo uma frase "nunca pensei que houvesse por ende tanto artimanho". Era um dos comentários, penso, que os residentes faziam quando passavam máquinas que nós viamos pela primeira vez... Saudades

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    2. Vi pela 1ª vez o P.Telmo em Dues Eigreijas mais ou -1956/67 a quem dei água pª meter no carro que estava a precisar. Mais tarde vim beneficiar da obra que ele fez para que os filhos dos barragistas pudessem estudar e que foram muitos. Digo muitas vxs: parte do que hoje sou a ele o devo, pois tenho a certeza que Deus lhe tem reservado um bom lugar no céu. Pª quem não sabe ele já editou um 2º livro "O LOdo e as Estrelas 2" que eu também já possuo bem como o 1º. Quanto á obra que ele efectuou nas barragens tive oprotunidade de ver de perto e conhecer também algumas pessoas doentes a quem ele ajudava material e moralmente. Para ele um bem haja e que Deus o continue ajudar para que ele possa continuar a sua obra.
      Antónia Lopes

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  5. Tenho um dos primeiros livros do "Lodo e as estrelas" que o meu pai barragista ofereceu à sua mãe, também ela a trabalhar como leiteira na antiga Hidro Elétrica do Douro e que fugiu e ser confiscado pelo antigo regime.(Era uma relíquia para a minha avó e que eu guardo como recordação).

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