sexta-feira, 24 de julho de 2015

Recordar Martins Janeira, por João Azenha da Rocha

Martins Janeira - 1947
Transposto o pequeno portão do nº 40 dessa arborizada e sossegada rua, galgados os primeiros degraus do jardim, estanquei, ao deparar com a imagem do Sr. Embaixador, no alto do último patamar, trajado a rigor, com a faixa azul de diplomata. Procurando desfazer o meu acanhamento, com o amável sorriso que lhe era tão natural, interpelou-me desconstruindo a sua imagem solene, dizendo algo como ‘ora veja só ao que um homem é obrigado na vida!’.
A verdade é que os Srs. Embaixadores Armando e Ingrid estavam prestes a sair para o Palácio da Ajuda, onde se organizara uma recepção a sua Majestade a Rainha de Inglaterra. Nessa noite, quebrando o protocolo da sessão de cumprimentos, a Rainha dirigiu-se-lhes com total familiaridade exclamando: ‘’Oh, you are here!’, distinguindo-os assim com o seu reconhecimento, lembrando-se dos amigos que recebera em Buckingham Palace.
Nessa casa do Estoril, envolta em exuberante vegetação, respirava-se um ambiente sereno. Era da brisa suave e da refrescante verdura que entrava pelas portadas dos generosos terraços; era dos livros que, aos milhares, sem espaço entre eles, preenchiam toda a casa (excepto as paredes das escadas, ocupadas por magníficas obras de pintura contemporânea); era das sonatas de violino e de piano de Mozart ou das bellissime canzoni do eclético Lucio Dalla, entre tantos outros temas que convidavam à contemplação.
A arte era uma constante em todos os espaços, representada em variados domínios. Completando a atmosfera, despontavam performances, aproveitando a visita de muitos dos seus melhores intérpretes. A intervalos, um silêncio profundo, entrecortado pela alegre cantoria das aves e o deslizar da brisa na folhagem. O espaço natural e o construído equilibravam-se na justa medida, estimulando a reflexão, resultando num ‘espírito de lugar’ sensível, inspirador, propício à utopia, a um ideal de humanidade.
Durante alguns anos, por volta dos anos 80 do século passado, frequentei essa admirável casa, pela amizade que me ligava e liga, aos filhos do casal, que prosseguem hoje brilhantes carreiras internacionais. Como é próprio dos 20 anos que então tínhamos, era nas casas familiares que nos reuníamos com o pretexto de estudarmos as pesadas cadeiras de Direito. A sala de estudos da avenida de Portugal era a mais acolhedora.
Chegada a hora de distracção, os amigos que nos aguardavam tinham de esperar, a saída ficava adiada pelas conversas, da maior riqueza e franqueza que já conheci. A relevância atribuída a Armando Martins Janeira pela juventude que o conhecia não era apenas local. Um dia, em Roma, com o elenco de uma moderna companhia teatral, mantivemos prolongada conversa acerca do seu pensamento, confirmando a admiração que esse grupo de jovens italianos nutria pela sua obra.
Durante esses anos, mostrando interesse pelas mais variadas matérias, o vigor comunicativo do Sr. Embaixador estimulava o início das conversas, dando-nos de seguida a melhor atenção, apesar de porventura pouco a merecermos. Recordo que tinha um gosto particular pelo ciclo produtivo dos mármores: perguntava-me tudo sobre as técnicas, a cadeia operatória, as variedades, as pedreiras e os mercados. Mas o que mais o fascinava e procurava conhecer era o que os artífices do ramo sentiriam ao lidar com essa pedra tão cheia de vida e de elevado valor artístico.
Cultivava essa simplicidade rara que desinibia o interlocutor, era atento no diálogo, respeitador como ninguém, bem-humorado, conjugando a afectividade com o carácter livre e seguro dos que nasceram para lá do Marão. Por algum forte motivo, nunca deixou de levar sempre consigo as pedras transmontanas que lhe avivavam a lembrança da terra a que tanto queria.
Percebi, anos mais tarde, que essa marca de distinta hospitalidade tinha raízes profundas nas maneiras transmontanas de acolhimento, traduzida na fórmula ‘entre quem é!’. Na verdade, os hábitos que ganhara no ‘seu’ Trás-os-Montes de infância, parecem ter sido sempre o leme da sua conduta, reforçada com a sua vasta cultura e experiência de mundo, da qual o contacto com o oriente terá sido um reencontro venturoso com os seus valores mais profundos.
Esses valores universais que se conjugaram num só homem, e que são as virtudes que ele próprio destacou: a bondade, a coragem, o sentimento de gratidão e a fidelidade à palavra dada. Talvez por isso eu tenha ousado ter autoridade para lembrar recentemente a um dos seus descendentes mais jovens: ‘não te esqueças nunca que, além de português, serás sempre transmontano’.

João Azenha da Rocha

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